Começamos com o reconhecimento de que temos dois mundos ao mesmo tempo; nosso mundo interior, individual, subjetivo, que somente nós vivenciamos  e o mundo externo que a vida coloca diante de nós a cada momento. Mundo interno é a nossa dimensão psicoemocional, que se constitui de enredos particulares, interpretações e visão de mundo, seguidos de sentimentos e emoções correspondentes. Dimensão interior e exterior são vivenciadas simultaneamente e porque, constantemente oscilamos entre ambas, temos a impressão de serem uma coisa só. Mas apesar de juntas são diferentes. Vivendo no modo piloto automático, não nos damos conta de que nossos pensamentos e sentimentos, não são a realidade objetiva e sim a nossa experiência particular diante do que a vida nos apresenta. Por isso que conflitos nos relacionamentos em sua maioria, são desencontros entre diferentes modos de interpretar, pensar e sentir, os mesmos fatos. Todos nós somos dotados da capacidade de discernimento entre o que é real e o que é imaginado, porém nunca fomos ensinados a desenvolver essa habilidade natural. E assim, vamos pela vida fazendo uma confusão enorme, dando valor de realidade ao que objetivamente não está acontecendo. A confusão desfaz quando acessamos nossa capacidade de discernir entre real e imaginário, realidade e ficção, sempre que algo nos incomoda emocionalmente. Começamos dando um passo interno para atrás da nossa mente pensante, ou seja, para antes do pensamento.  Assim se abre um distanciamento, um espaço no qual observamos o que pensamos, sentimos, como reagimos e agimos. Exatamente porque temos uma parte que pensa e sente e outra parte que vê o que está sendo pensado e sentido, é possível narrar nossa experiência passada bem como narrar o que pensamos, sentimos e como reagimos. Vale enfatizar que estamos falando de quando somos afetados emocionalmente, seja desde uma ponta de ansiedade, uma extrema preocupação, até um ataque de pânico. É claro que existem sofrimentos impossíveis de evitar. Nosso foco porém, é justamente no discernimento entre sofrimento autofabricado e sofrimento inevitável.  É a diferença entre sofrer pela perda de alguém que amamos e sofrer um medo antecipatório de perder alguém que amamos. Uma vez que conseguimos dar o passo para atrás da mente pensante, ou para antes do pensamento e ver o que estamos pensando, sentindo, como atuamos e porque, o próximo passo é conferir se nossas interpretações e crenças têm consistência na realidade. É basicamente discernir entre situação reaidade, memória, imaginação e suposições. O Famoso “e si” O sofrimento com base em suposições, nasce do medo do que pode acontecer no futuro por causa do que aconteceu no passado, seja na própria experiência ou na experiência alheia observada. Nossas experiências passadas, podem nos dar a sensação de certezas sobre o que pode se repetir, porque as crenças permanecem intactas. Muitas vezes repete, porque inconscientemente agimos de modo a confirmar nossas crenças e interpretações. É importante reconhecer o quão pouco ou sobre quase nada, podemos ter controle e certezas absolutas na vida, principalmente quando não se trata do funcionamento prático, funcional da vida. Outro aspecto que não fomos ensinados a discernir, é que o  único ponto do tempo que é de verdade, é o sempre agora. Nosso corpo não pode estar no passado nem no futuro.  Pensamentos e sentimentos contém passado e futuro, mas é no sempre agora que vivemos. As etapas da prática aqui sugerida são; •distanciamento interno para olhar sem crítica, o que pensamos e sentimos e como reagimos. •conferir se o que pensamos, acreditamos e sentimos, está de fato acontecendo agora. •Reconhecer que controle e certezas absolutas, são ilusões para disfarçar medos inconscientes. •Reconhecer que realidade, é o que de fato acontece e não o que pensamos, imaginamos e queremos que seja. …uma esposa desconfiada de que o marido a estava traindo com a secretária, nunca falou com ele sobre tal desconfiança. No dia em que ele fechou sua empresa, a secretaria se mudou para outro país e ele despareceu sem nunca mais dar notícias. A esposa entendeu que ele fugiu com a secretaria, mergulhou a si e os filhos em um sofrimento devastador, cheio de ódio, rejeição e crítica. Um ano depois durante uma obra em um terreno atrás da sua casa, acharam o corpo morto do marido caído em um buraco, desde o dia em que ele desapareceu. Quando nosso conteúdo interno sobrepõe a realidade, passamos a reagir a partir do que pensamos e sentimos, sem considerar que nunca temos a verdade absoluta sobre a realidade. Como ferramentas para desenvolver o discernimento entre realidade e imaginação, temos duas perguntas a serem aplicadas, toda vez em que detectamos desconforto emocional em nós. 1ª. Pergunta: Meu sofrimento decorre de como penso, sinto e quero que a situação deveria ser, ou decorre do que de fato está acontecendo? Essa pergunta entra quando, na observação do que pensamos e sentimos, conferimos se nossa perspectiva parte da realidade, ou da nossa interpretação/imaginação. 2ª. Pergunta: Do que estou com medo? Quando detectamos do que estamos com medo, novamente investigamos se o medo tem consistência na realidade ou em suposições provenientes da nossa cena interna. Aqui reconhecemos que insistir em controlar a realidade e acreditar em certezas absolutas, significa perder no jogo da vida. A realidade é soberana e quase sempre se impõe sobre nossas vontades e nossos desejos. Como não nos ensinamos a interromper nossas reações automáticas para desenvolver esse discernimento, inicialmente pode parecer impossível e estranho. Mas se persistimos nessa prática, acaba se tornando tão natural, que passa a ser nosso funcionamento automático, diante de qualquer tipo de desconforto emocional. O ganho que se obtém é a libertação do sofrimento desnecessário. O desejo por essa libertação surge do reconhecimento de quanto esforço e energia nos custa brigar com o que não podemos mudar, só para impor e manter nossas opiniões, vontades e versão de como a vida tem que ser. Porém, é exatamente nesse reconhecimento, que temos a chance de soltar o que atrapalha nosso poder pessoal e nossa segurança interior. E o que mais podemos chamar de felicidade genuína?